Santa Cruz (Avaré - SP)

Inauguração : 1927
Filme inaugural : "Chang - A Drama of the Wilderness" (1927).

Depois de ampla reforma, reinaugurado em 08/03/1941.
Programa inaugural :
"A Última Confissão" (1939), com Victor McLaglen.
Complemento nacional
"Manobras do Exército Brasileiro no Vale do Paraíba".

Exibidor : Empresa Teatral Peduti
Gerente : Amílcar Montebugnoli

Endereço : Rua Maranhão, 1492 - Centro - Avaré - SP

Capacidade : cerca de 1100 lugares

Em funcionamento ? : Não
Encerrou as atividades em setembro de 1985.




ÁUREOS TEMPOS DO CINE SANTA CRUZ
Se alguém perguntar no futuro, qual terá sido o meio de expressão de maior impacto da era moderna, a resposta poderá ser quase unânime: o cinematógrafo. 
Inventado em 1895 pelos irmãos Lumière – primeiro com finalidade científica -, o cinema revelou-se peça fundamental do imaginário coletivo do século XX, seja como fonte de entretenimento ou de divulgação cultural de todos os povos do planeta.
Em Avaré, essa emocionante invenção chegou há pouco mais de cem anos. Foi em 1908, ainda na época do cinema mudo. Abriu-se aqui a primeira sala de projeção com o nome de Cine-Theatro e teve como proprietário, José Alves Valente.
Por iniciativa de Joaquim Alves, quinze anos depois, em 1923, surgia o Cine Santa Cruz, inaugurado com a exibição do filme “Chang”, da Paramount Pictures, distribuidora dos maiores estúdios de cinema de Hollywood.
No lugar, na Rua Maranhão, havia ali uma oficina de fogos destruída num incêndio e, antes, uma capela com um cruzeiro em frente. Tudo foi demolido para dar lugar a essa casa de espetáculos e que por essa razão recebeu o nome de Cine Santa Cruz.
Frequentadíssimo pelo público local, por ser uma das poucas atividades de lazer, o Cine Santa Cruz serviu de palco para acontecimentos artísticos de rara sensibilidade, como o concerto regido pelo maestro Heitor Villa-Lobos, em 1931.
Apogeu
Amplamente reformado no início dos anos 40, o prédio teve como gerente o músico Amílcar Montebugnoli. Nessa época, a casa passou a integrar a Empresa Peduti, grande rede de cinemas no interior.
Na tarde de 8 de março de 1941, o padre Celso Ferreira abençoou as instalações do Cine Santa Cruz em sua nova fase. Discursaram na inauguração, o interventor Romeu Bretas e o empresário Emílio Peduti, dono da rede de cinemas e político influente em Botucatu. 
Marcando a solenidade, foi exibido para a plateia um filme mostrando as manobras do Exército brasileiro no Vale do Paraíba “num tecnicolor belíssimo”, como assinala reportagem da época. E à noite, em duas sessões, o faroeste “A Última Confissão”, estrelado por Victor Mac Laglen, Joseph Calleia e Sally Eilers, eletrizou o público.
Nesse período a casa sediava também espetáculos musicais. O tenor Vicente Celestino se apresentou ali, assim como o violinista avareense Raul Laranjeiras, ex-presidente da Ordem dos Músicos do Brasil.
O espaço era também aberto a conferências e, uma das marcantes, teve como protagonista Plínio Salgado, o polêmico líder integralista. O folclorista Cornélio Pires ali contou histórias, sem falar de seu parente, o avareense Herculano Pires, escritor espírita mais traduzido no mundo.
Outra figura notável do cinema brasileiro a marcar presença no Cine Santa Cruz foi o comediante Amácio Mazzaroppi, que encarnava o “Jeca Tatu”.
Uma das películas mais vistas na cidade foi o épico “Ben-Hur”, com Charlton Heston, produção norte-americana de 1959. 
Muitos outros filmes atraíram grande público ao Cine Santa Cruz, como o romance "Dio como ti amo", com Gigliola Cinquetti e Mark Damon, recorde de bilheteria em 1967.
Por seguidas gerações, os cinéfilos tiveram aonde ir, antes ou depois dos famosos passeios de “footing” que costumavam fazer no Largo São João. A noite terminava romântica nas inesquecíveis sessões do Cine Santa Cruz. Afinal, muita gente namorou naquele espaço e depois se casou.
The end?
Os cinemas brasileiros entraram em decadência, em meados dos anos 80, com o advento do videocassete. Mas já na década de 70, a TV começa a tomar forma e a conquistar a importância atual, o que vem culminar com o início do fechamento de várias salas de cinema.
O Cine Santa Cruz não foi exceção. Melancolicamente, teve suas portas fechadas em setembro de 1985. 
Desde então, aquele nobre espaço artístico, acabou sendo explorado para outras atividades, em nada comparáveis com a sétima arte. 
Diz uma definição que cinema é essencialmente luz, graças aos seus projetados feixes luminosos. Quem não gosta de luz? Temos todos, fascínio natural pelo que brilha, cintila, resplandece. 
Em doces memórias, o velho Cine Santa Cruz não pode e nem merece continuar fechado, mas sim reaberto para ser transformado num perene palácio das nossas artes. 
Produtor de emoções, esse templo, essencialmente artístico, precisa ser revitalizado e historicamente preservado, já que as suas paredes ainda retém tantas emoções humanas. Emoções a serem ainda projetadas em outras histórias de ação, paixão, amores, guerras, reviravoltas de destinos, mundos fictícios, tudo desfilando na tela ou no palco para a nossa alegria.
* Do livro "Avaré em memória viva", de Gesiel Júnior, Ed. Gril, 2011.
2011
2011
 


CINE SANTA CRUZ VAI VIRAR UMA GRANDE LOJA

30/12/2016 - Um dos mais representativos bens culturais da cidade – o antigo Cine Santa Cruz – logo vai se tornar uma grande casa comercial. Embora o prédio tenha sido tombado pelo patrimônio histórico municipal há 7 anos, em novembro de 2009, por decreto do então prefeito Rogélio Barcheti, o imóvel vem sendo completamente reformado nos últimos meses.
Nenhum dos membros do Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural (Condephaac) soube explicar quem autorizou as obras. No Paço Municipal, ninguém toca no assunto, mas a reportagem do jornal O Victoriano apurou que Barcheti teria revogado a medida, o que viabilizou a alteração do prédio, uma das referências culturais da cidade.
Entre os anos de 2010 e 2012, o antigo Cine Santa Cruz foi alugado pela Prefeitura, que nele instalou o “Palácio das Artes”, sendo sede administrativa da Secretaria da Cultura. Suas instalações também serviram para a promoção de muitos eventos artísticos.
Devolvido ao proprietário em fevereiro de 2012, como a Prefeitura devia os aluguéis do período, fontes do Paço garantiram que Barcheti teria negociado a quitação do débito promovendo o “destombamento” do imóvel. 
Descaracterização – A reportagem do jornal esteve nas instalações do velho cinema e observou que o imóvel já teve o seu interior completamente descaracterizado. 
Ouvido, o encarregado das obras repetiu a versão que corre nos bastidores da Prefeitura: a de que Barcheti, para resolver a cobrança judicial movida pelo atual dono do imóvel, rasgou o documento em que antes havia protegido aquele bem cultural.  
A reportagem tentou ouvir o ex-prefeito sobre o assunto, mas o mesmo não respondeu às ligações. 
Entre os anos 1920 e 1980, o Cine Santa Cruz não só apresentava o melhor do cinema para o público local, como também sediava grandes espetáculos. Em seu palco, além de palestra com o integralista Plínio Marcos, houve concerto do maestro Heitor Villa-Lobos e espetáculos de Mazzaroppi.
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1. Arquivos institucionais e privados

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Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

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Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

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