Aparecida (São Paulo - SP)

Inauguração : 14/03/1951 (20hs.)
Proprietários :
José Augusto Ayres Pereira (secretário do Sindicato dos Exibidores Cinematográficos do Estado de São Paulo). Depois, Dorival S. de Agostino. Depois, Pascoal Lamana.
Endereço : Av. Jaçanã, 635 - Jaçanã
Capacidade : cerca de 700 lugares (depois, com a instalação da tela CinemaScope, em 30/12/1956, cerca de 500 lugares)
Em funcionamento ? : Não. Hoje, um prédio comercial.
Curiosidades :
Depois do fechamento do cine Jaçanã, na Av. Guapira, o proprietário abriu este na Av. Jaçanã.
O então proprietário do cine Aparecida, José Augusto Ayres Pereira, acusado de desvio de dinheiro de impostos, suicidou-se no dia do comparecimento à delegacia, em 02/01/1952 (veja na notícia publicada abaixo).

José Augusto Ayres Pereira

Artigo:

Imagens do Jaçanã dos anos 50 nas memórias do Cine Aparecida
por Alex Ribeiro (09/01/1993)

Faz uns trinta anos que o ex-projecionista Osvaldo Gonçalves, morador do Jaçanã, não põe os pés num cinema. "Sei lá, tenho até medo de ir". Para ser rigoroso com os fatos, ele foi uma vez. Pegou meio cinema, junto com os netos, num parque de diversões. "Não sei se aguentaria entrar num cinema depois de todo este tempo. Seria muita emoção. Um monte de imagens do passado voltaria a minha cabeça, como se fosse um videoteipe".
As primeiras tomadas deste videoteipe são da década de 40. Osvaldo, ainda um garoto, ia junto com o pai ao cine Jaçanã, que ficava num prédio onde hoje está sediado o clube de campo do Guapira. Eles preferiam ir durante a semana. Quando sentava na platéia, o pequeno Osvaldo sabia que, além do pai, havia mais um conhecido por perto. Seu tio, dentro da cabina de operação, zelava pelas imagens projetadas na tela. O sobrinho sempre ganhava uns pedaços de filme velho. Além de ser mais divertido que figurinha, o celuloide era perfeito para traquinagens: pegava fogo com facilidade. Um dia o tio mostrou para o sobrinho como era uma cabina de projeção pelo lado de dentro. Ficou tudo registrado no seu videoteipe.
Corta a cena para a década de 50. O menino já é um pequeno rapaz, com seus 15 anos. O Cine Jaçanã fecha na Avenida Guapira. E reabre na Avenida Jaçanã, agora com o nome de Cine Aparecida. O cinema vira vizinho do jovem Osvaldo, que, já aficionado por imagens, registrava flagrantes do Jaçanã com uma máquina fotográfica 6x9. Sem sair de casa já podia acompanhar o burburinho da porta do cinema.
Osvaldo passa um ano tentando convencer seu tio a ensiná-lo o ofício de projetar filmes. Até que um dia foi admitido como praticante. Logo se tornou ajudante de operador. Seis meses depois, seu tio se aposentou. Osvaldo já era projecionista: tinha uma cabina só para si.
O foco da câmera se dirige à cabina de Osvaldo. Durante os intervalos, uma vitrola toca, em 78 rotações, velhos bolachas. A agulha fora trocada há poucos minutos, pois ela gasta totalmente a cada quatro discos tocados. A sessão vai começar. Soam três campainhas, com sons diferentes. Entra em funcionamento um dos dois projetores. A luz de carvão brilha com bastante intensidade, como se fosse uma máquina de solda. O filme desenrola do tambor de cima e corre para o de baixo. Nem por brincadeira o filme pode enroscar e parar de correr. Osvaldo sabe desde criança que celuloide é combustível.
Se fosse dia de estréia, Osvaldo assistiria o filme com atenção. Se a fita estava sendo projetada pela segunda vez, valia a pena revê-la para pegar algum detalhe perdido. Assistir um filme pela terceira ou quarta vez, só se a atriz fosse muito bonita. Uma Marlene Dietrich ou Esther Williams. Caso contrário, o negócio era olhar pela janela e, lá de cima, ver o movimento da porta do cine Aparecida - uma espécie de síntese dos anos dourados do Jaçanã.
Senhores e senhoras, acompanhados das crianças, esperando na fila a vez de comprar ingressos. Rapazes de terno, desinteressados no filme e atentos às garotas, fazem rodinhas. Moça de respeito só se via com as amigas nas matinês. Sessão noturna, apenas acompanhada do pai. Do contrário, estaria sujeita a comentários. Principalmente de carolas que iam ao cinema não para ver filmes, mas com o fim específico de patrulhar a conduta moral de terceiros.
Raramente acontecia uma ou outra briga na porta do cinema. Era o pessoal da Vila Mazzei que uma vez ou outra invadia o território do Jaçanã. Os dois guardas que cuidavam da patrulha do bairro - um da força pública e outro da guarda civil - ficavam logo atentos. Mas o que predominava mesmo era a paz. E amor. Porta de cinema nos anos 50 era "point" mais quente que corredor de shopping center nos dias de hoje. Era um rapaz se interessar por uma garota e marcar um encontro no cinema.
A porta do Cine Aparecida só ficava mais vazia na sessão das onze horas, durante a semana. Se a fita não era das melhores, poderia acontecer de na platéia ter apenas 20 ou 30 pessoas. Nesses dias o próprio seu Dorival, proprietário do cinema, ia até a porta da cabina do Osvaldo, cerrava o punho e fazia sinal de negativo com o polegar. Para bom entendedor, um gesto bastava. Osvaldo já sabia que era para fazer uma fita de duas horas ficar com uma hora e vinte, hora e meia. Era necessário ficar atento para fazer o corte direito. Tinha que haver uma sequência lógica entre os dois pedaços emendados. Mas invariavelmente alguém da platéia percebia e soltava: - "Navalha!"
Ossos do ofício - e até deles Osvaldo sente saudades. Apesar de nunca mais ter retornado a um cinema, até hoje ele cultiva a paixão pela imagem. Adaptou-se aos tempos modernos: tem em casa uma máquina fotográfica semi-automática, uma câmera e projetor super 8 e um videocassete. Na estante, uma coleção de clássicos: "A morte me persegue", de 1939; "A margem da vida", de 1950; "O homem que sabia demais", de 1934. E guarda na memória uma cena de 1957: foi quando deixou a sala de projeção do Aparecida. E se casou. Mas, se ele trabalhava quando o cinema funcionava, como conheceu a esposa? "Eu tinha folga uma vez por semana. Já estávamos de olho um no outro. Batemos um papo e marcamos um encontro..." No cinema? "Não. Foi no Parque-Balneário Vila Galvão".
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PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

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Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Acervos particulares de Luiz Carlos Pereira da Silva, Caio Quintino e Ivani Cury.

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