Picolino (São Paulo - SP)

Inauguração solene : 05/08/1955
Inauguração pública : 06/08/1955
Filme inaugural :
"Amar é Sofrer", com Bing Crosby, William Holden e Grace Kelly.

Proprietários : Empresa Rilo de Cinemas e Hotéis S/A.
Exibidor : Empresa Cinematográfica Serrador Ltda.

Reinauguração : 31/03/1965
Nova fase do cinema com programação de filmes feita por
Dante Ancona Lopez.
Filme inaugural :
"Os Amantes de Florença", com Marcello Mastroianni.

Endereço : Rua Augusta, 1513 - Consolação

Som e projeção : Simplex
Capacidade : 850 lugares

Em funcionamento ? : Não.
Virou restaurante, bar e local para eventos.

Parte do depoimento de Dante Ancona Lopez concedido a Plácido de Campos Jr. em 1993 :

Com alguma dificuldade consegui abrir, na Rua 7 de Abril, o cine Coral, já consciente da possibilidade de uma programação diferenciada daquilo que então se fazia. Seria o "Cinema de Arte", embora o cinema tradicional ou comercial também tivesse espaço.

A ideia básica ia na direção de uma programação menos voltada e preocupada com o retorno comercial imediato e mais atenta à difusão do cinema, porque faltava uma sala que exibisse as muitas fitas paradas em várias distribuidoras: fitas de Fellini, de Antonioni, de Resnais que não eram exibidas. Abri em 1958 e a experiência do cine Coral foi bem sucedida e durou oito anos; depois vendi o cinema e dei um giro pelo mundo com minha esposa.

Fui convidado, na volta ao Brasil - pela Companhia Serrador, do Julio e do Florentino Llorente -, para levar, no cine Picolino da Rua Augusta, uma programação de perfil similar àquela que fazia no Coral. Isto porque o Picolino, naquele momento, estava se ressentindo de falta de público. A Cia. Serrador pretendia diferenciar a programação do Picolino e, com a colaboração do Rudá de Andrade, começamos a trabalhar.

A programação era feita a partir dos títulos disponíveis nas carteiras das distribuidoras. Porém, com início da participação da SAC - Sociedade Amigos da Cinemateca - que agia como um conselho informal de orientação e onde as figuras de Paulo Emilio Salles Gomes e Rudá de Andrade foram determinantes -, fomos ficando mais ambiciosos.

O Picolino se transformou no maior sucesso de público na Rua Augusta. A Metro Goldwyn Mayer impôs à Cia. Serrador, quando da renovação do contrato de distribuição de seus filmes, que o Picolino fosse incluído na programação. Quer dizer, uma vez valorizado o Picolino, a Metro o exigiu e a Serrador teve que ceder. Houve uma discussão pesada e minha resposta foi seca e negativa. Para contemporizar com a situação, o Florentino me prometeu ceder em 24 horas um outro cinema e, ciente dos resultados positivos anteriores, propôs o antigo cine Trianon, que se transformou no Belas Artes.

Anúncio de inauguração - 05/08/1955
Anúncio de inauguração - 06/08/1955

Nova fase do cinema com programação de filmes de Dante Ancona Lopez
2016
2016

Coral (São Paulo - SP)

Inauguração solene : 17/09/1958
Inauguração pública : 19/09/1958 
Filme inaugural : "Esses Maridos!", de Luigi Comencine.

Projetado e construído pelo engenheiro arquiteto Tulio Ficarelli.
Proprietário e programador de filmes :
Dante Ancona Lopez (até 1966)

Endereço : Rua 7 de Abril, 381 - República

Capacidade : 1000 lugares
A partir de 13/12/1977, salas 1 e 2.

Em funcionamento ? : Não. Fechou em 1991.
O prédio foi transformado em uma galeria de lojas.

Curiosidades :
A longa frente do cinema oferecia ampla galeria, com paredes laterais de mármore e portal de sete metros de altura, com quatro colunas de mármore.
Na sala de espera havia colunas revestidas de espelhos oxidados em azul e ouro, contando com painéis decorados com motivos de fundo do mar.
O proprietário, Dante ancona Lopez, vendeu o cinema em 1966.
Em 1984, o cinema passou a exibir apenas filmes pornográficos.

O cine Coral

Dante Ancona Lopes idealiza em 1958 o cine Coral, “que vinha para atender um público que não ficava satisfeito com o filme de todo dia, aquele cidadão que não quer feijão com arroz todo dia” (depoimento de Dante à Divisão de Pesquisas, em 25/6/1982).

O Coral, no centro da cidade, se transforma em pouco tempo no ponto de encontro de uma platéia ávida por emoções cinematográficas menos convencionais. Lá são exibidos filmes de Antonioni, Fellini (“A Doce Vida” fica meses em cartaz), “Os Incompreendidos” de Truffaut, “O Ano Passado em Marienbad”... pautando sua programação com títulos que os exibidores geralmente rejeitavam sob argumento de prejuízo certo. 

Dante Ancona Lopez : “Eu construí o Coral num terreno onde existia o depósito de um jornal do Rio chamado 'A Noite', e o terreno era do Dr. Sacramento. Eu aluguei o terreno por dez anos e construí, assumindo o compromisso de no prazo acertado entregar tudo que tivesse construído para ele. Meu plano era amortizar a construção em quatro anos e eu aproveitaria o resto dos seis para mim, mas eu amortizei a construção em apenas dois anos. Quer dizer, a programação foi boa e o público correspondeu. Depois usei mais cinco anos e acabei vendendo o contrato para o Valanci (exibidor carioca) porque resolvi que ia viajar com a minha mulher pelo mundo”.

Quando Dante Ancona Lopes abriu o cine Coral para atender a uma clientela cinematográfica que se encontrava órfã diante da programação dos cinemas da Capital. Tinha claro para si inúmeras possibilidades inexploradas no circuito comercial, justamente pela falta de ousadia de outros empresários, ou em outras palavras, pelas deformações impostas e cristalizadas ao longo de décadas de convivência com platéias dóceis e praticamente formadas a partir de uma única fonte de filmes de Hollywood, através dos distribuidores americanos e associados nacionais. O Coral exibiu Fellini, Antonioni, Resnais, Truffaut, entre outros, e superou todas as expectativas, inclusive as do seu idealizador. A resposta do público foi um sinal eloqüente a confirmar a existência de faixas de público a serem sensibilizadas por uma programação cinematográfica mais variada e sofisticada.

Depois do sucesso do Coral, o nome Dante Ancona Lopes ficou ligado aos cinemas de arte da cidade. A Serrador vai convocá-lo para recuperar o cine Picolino e, posteriormente, para conceber o Belas Artes - a sala de maior prestígio na cidade pela sua programação e localização na esquina da avenida Paulista com a Consolação. Com a venda do Belas Artes para a Gaumont do Brasil (sucedida pela Alvorada), Dante se estabelece no Cinearte (no Conjunto Nacional, na avenida Paulista).

Texto do livro “Salas de cinema em São Paulo”, de Inimá Simões - 1990

Este cinema se caracterizou pelo fato de ser a primeira experiência bem-sucedida na implantação de uma sala totalmente voltada para o público amante do chamado film d’art. A iniciativa inovadora do Coral serviu de modelo para a instalação de outras salas de arte pelo resto do país, nos anos que se seguiram.

O Coral, sob a tutela da programação de Dante Ancona, serviu como espaço de divulgação da cinematografia internacional emergente nos anos 1950, onde se pode destacar a geração do pós-neo-realismo italiano e as produções oriundas do leste europeu, entre outras. O Coral se consagrou como um espaço bastante rentável, fato que permitiu ao já veterano programador, após oito anos de atividade, a possibilidade de realizar uma viagem ao redor do mundo com a sua esposa Dona Linda.

Por algum tempo, o Coral também abrigou a sede da Sociedade Amigos da Cinemateca (SAC), criada em 1962 para apoiar a Fundação Cinemateca Brasileira.

Pesquisa, seleção e edição de texto : 
André Piero Gatti, Carlos Augusto Calil, Hugo Malavolta e Plácido de Campos Jr.

Parte do depoimento de Dante Ancona Lopez concedido a Plácido de Campos Jr. em 1993 :

Com alguma dificuldade consegui abrir, na Rua 7 de Abril, o cine Coral, já consciente da possibilidade de uma programação diferenciada daquilo que então se fazia. Seria o "Cinema de Arte", embora o cinema tradicional ou comercial também tivesse espaço.

A ideia básica ia na direção de uma programação menos voltada e preocupada com o retorno comercial imediato e mais atenta à difusão do cinema, porque faltava uma sala que exibisse as muitas fitas paradas em várias distribuidoras: fitas de Fellini, de Antonioni, de Resnais que não eram exibidas. Abri em 1958 e a experiência do cine Coral foi bem sucedida e durou oito anos; depois vendi o cinema e dei um giro pelo mundo com minha esposa.

Fui convidado, na volta ao Brasil - pela Companhia Serrador, do Julio e do Florentino Llorente -, para levar, no cine Picolino da Rua Augusta, uma programação de perfil similar àquela que fazia no Coral. Isto porque o Picolino, naquele momento, estava se ressentindo de falta de público. A Cia. Serrador pretendia diferenciar a programação do Picolino e, com a colaboração do Rudá de Andrade, começamos a trabalhar.

A programação era feita a partir dos títulos disponíveis nas carteiras das distribuidoras. Porém, com início da participação da SAC - Sociedade Amigos da Cinemateca - que agia como um conselho informal de orientação e onde as figuras de Paulo Emilio Salles Gomes e Rudá de Andrade foram determinantes -, fomos ficando mais ambiciosos.

Picolino se transformou no maior sucesso de público na Rua Augusta. A Metro Goldwyn Mayer impôs à Cia. Serrador, quando da renovação do contrato de distribuição de seus filmes, que o Picolino fosse incluído na programação. Quer dizer, uma vez valorizado o Picolino, a Metro o exigiu e a Serrador teve que ceder. Houve uma discussão pesada e minha resposta foi seca e negativa. Para contemporizar com a situação, o Florentino me prometeu ceder em 24 horas um outro cinema e, ciente dos resultados positivos anteriores, propôs o antigo cine Trianon, que se transformou no Belas Artes.

Projeto do cine Coral

Noite festiva de inauguração - 17/09/1958

Noite festiva de inauguração - 17/09/1958

17/09/1958

17/09/1958

17/09/1958



A partir de 13/12/1977, duas salas.

A partir de 13/12/1977, duas salas.


2014

Trianon (São Paulo - SP)

Inauguração : 14/07/1956
Fundador : Phelippe Azer Maluf
Exibidor : Cia. Cinematográfica Serrador Ltda.
Endereço : Rua da Consolação, 2433 - Consolação
Capacidade : 1400 lugares
Em funcionamento ? : Sim. Agora, Cine CAIXA Belas Artes.
Depois, Belas Artes , Gaumont Belas Artes, HSBC Belas Artes e, agora, Cine CAIXA Belas Artes.
Curiosidades :
Em sua inauguração foi exibido o filme "Eles se casam com as morenas/Gentlemen Marry Brunettes", com Jane Russel e Jeanne Crain. O gerente e o diretor da Cia. Serrador estiveram presentes, João Zeron e Dr. Florentino Liorente.
Contava com aparelhos de som e projeção Simplex para os sistemas CinemaScope, Vista-Vision, SuperScope e Naturama. Som estereofônico.
Depois de passar por uma reforma, em 1967, foi reaberto como Belas Artes, um cinema que logo passou a ser frequentado pelo público mais intectual, em razão da excelente programação, que estava a cargo de Dante Ancona Lopez, que, depois de vender o cine Coral (cinema que exibia filmes de arte), foi convidado para trabalhar na Companhia Serrador.






Fontes de pesquisa:
Revista "Acrópole: arquitetura, urbanismo e decoração" - 1956
Revista "Cine-Reporter" - Julho/1956
Agradeço a colaboração de Luiz Carlos P. da Silva e Nair B. P. da Silva.

Trianon (São Paulo - SP)


Anúncio de 13/07/1956



Anúncio de inauguração - 14/07/1956
Anúncio de inauguração - 14/07/1956

Belas Artes (São Paulo - SP)

Cine Belas Artes: um passeio por sua história
Por Antonio Ricardo Soriano e Luiz Carlos Pereira da Silva.
Colaboração: 
Roseli Venancio Pedroso (Bibliotecária, escritora e blogueira)

INAUGURAÇÃO - CINE TRIANON

O cine Belas Artes (atual cine CAIXA Belas Artes) é inaugurado em 14/07/1956 com o nome de cine Trianon. Possuía apenas uma sala com cerca de 1400 lugares (plateia e balcão) e era administrado pela Cia. Cinematográfica Serrador Ltda. Em sua inauguração é exibido o filme "Eles se casam com as morenas", com Jane Russel e Jeanne Crain. Estavam presentes o gerente e o diretor da Cia. Serrador, João Zeron e Dr. Florentino Llorente. Contava com aparelhos de projeção Simplex para os sistemas CinemaScope, Vista-Vision, SuperScope e Naturama e o som era estereofônico. O prédio era de propriedade de Phelippe Azer Maluf.























REINAUGURAÇÃO - CINE BELAS ARTES

O cine Trianon é inteiramente reformado e reinaugurado em 14/07/1967 (aniversário de 11 anos do cinema), com novo nome: Belas Artes. Com a instalação de novas poltronas, a capacidade do cinema diminui para cerca de 1200 lugares. O filme inaugural é "Os russos estão chegando" (1966), de Norman Jewison, indicado ao Oscar em quatro categorias e ganhador do Globo de Ouro na categoria de Melhor Comédia e Melhor Ator de Comédia (Alan Arkin), além da indicação de Melhor Roteiro (William Rose).

cinema de arte passa a predominar a programação do cine Belas Artes, organizada pela Sociedade Amigos da Cinemateca (SAC), criada em 1962, para apoiar a Fundação Cinemateca Brasileira. O presidente da SAC, Dante Ancona Lopez (1909-1999), havia selado um acordo com a Cia. Serrador, pelo qual se responsabilizava administrativa e artisticamente pelas projeções a serem realizadas na nova sala de espetáculos.

Dante Ancona Lopez era conhecido por trazer o “cinema de arte” a São Paulo (quando fundou o cine Coral, em 17/09/1958, na Rua 7 de Abril, 381) e já havia feito, acertadamente, a mesma experiência de levar filmes alternativos a dois cinemas menores, Scala e Picolino, também em parceria com a Cia. Serrador, razão pela qual as duas partes decidiram levar a experiência a uma sala maior.

Na cerimônia de anúncio a imprensa da inauguração do cine Belas Artes, em 12/04/1967, Dante Ancona Lopez declara:
“Quando começamos a experiência dos cines Scala e Picolino, pensávamos ter que fazer certas concessões ao gosto do público, exibindo fitas que, não sendo meramente comerciais, não tinham padrões excepcionais de qualidade. Atualmente, verificamos que esses filmes já não satisfazem ao público que se acostumou a exigir um alto nível artístico de nossa programação. “A Passageira”, de Munk, que atualmente está sendo exibida naqueles cinemas – e cujo lançamento nos parecia um pouco perigoso – está tendo a melhor das repercussões. O fato é que, em sua tentativa de estabelecimento de um cinema de arte, a SAC foi bem sucedida, o que em muito motivou a decisão acertada da Empresa Serrador de adotar São Paulo de um verdadeiro cinema de arteContinuaremos, pois a exibir uma programação que tenha grande categoria cultural. As sessões especiais de segundas-feiras, que vem sendo realizadas no Picolino, às 22h30, serão no cine Belas Artes, complementadas por outras manifestações artísticas. Ao invés de se limitarem á exibição de filmes de boa qualidade, que se perderam por lançamentos mal feitos, ou que não disponham de um público convencional, essas sessões serão precedidas de concertos corais e de câmara, recitais, palestras, debates, espetáculos teatrais e coreográficos”.

As apresentações não cinematográficas serviam, também, de complementação a filmes de importância artística que não tinham a duração convencional de 90 minutos ou mais. A ideia era adequar o cine Belas Artes ao lema da SAC: “ESPETÁCULO, POLÊMICA E CULTURA”.

















Já, Fiorentino Llorente, diretor da Cia. Cinematográfica Serrador e conselheiro-fundador da SAC declara, em junho de 1967:
“A decisão da Cia. Serrador, de instalar um grande cinema devotado ao filme de arte, foi ditada pela necessidade de São Paulo ser possuidora de uma sala de grande categoria com programação especial, a exemplo do que acontece em outras cidades do mundo. A experiência feita no Picolino mostrou ser possível a implantação junto ao público de um novo repertório de fitas, graças a um sistema novo de promoções. O filme de arte que, antes, era um verdadeiro tabu para o exibidor, hoje, graças a ação de cinematecas, cineclubes, imprensa especializada, realizadores nacionais, debates e estudos nos meios estudantes, exibidores e distribuidores mais esclarecidos, e até mesmo solicitado por uma plateia em formação e que, em matéria de qualidade artística, é mais exigente. É muito proveitosa a aproximação entre a Cia. Serrador e a Sociedade Amigos da Cinemateca, com sua indispensável assessoria cultural”.

Funcionava no 1º andar do Belas Artes, a secretaria e a biblioteca da SAC, além de uma galeria com exposições permanentes. No hall de entrada, stands com os últimos lançamentos de livros e discos de vinil. Havia, também, um pequeno palco com iluminação e sistema de som, adequados para realizar pequenos espetáculos de teatro, música e dança, além de palestras e conferências.

Os primeiros filmes exibidos no Belas Artes foram: "O Anjo Exterminador", de Luis Buñuel, "A Carroça", de Karel Kachina, "Pedro, o Negro", de Milos Forman, "Os Cachimbos do Adultério", de Voitech Jasny e "O Acusado", de Jan Kadar e Elmar Klos. Devido à grande capacidade de lotação do Belas Artes, as produções exibidas ali não podiam ser só para um público restrito, por isso, eram escolhidos filmes que atendiam os objetivos culturais da SAC e que podiam, ao mesmo tempo, chamar a atenção de um grande público.

Em 07/08/1970, o Belas Artes é dividido em duas salas: a Villa-Lobos (com 630 lugares) e a Cândido Portinari (no local do antigo balcão ou plateia superior, com 508 lugares).






















A terceira sala é inaugurada no subsolo do Belas Artes, em 05/12/1975, com nome de Mário de Andrade. O programador Dante Ancona Lopez procurava utilizar as salas do térreo e do 1º andar para exibir filmes mais populares e reservar a do subsolo para ciclos e mostras especiais.













Em 1981, os fiscais da Prefeitura apontam irregularidades nas salas de exibição do cinema. A Cândido Portinari possuía paredes revestidas de madeira, a Villa-Lobos tinha escadas estreitas e sem sinalização e a Mário de Andrade tinha apenas uma saída de emergência. O cinema permaneceu aberto e teve prazo de vinte dias para realizar as mudanças exigidas.

INCÊNDIO

Um incêndio destrói na madrugada de 10/05/1982, as instalações das duas maiores salas do Belas Artes, primeiro a Portinari, em seguida, a Villa-Lobos. A equipe de bombeiros teve dificuldades de acessar o interior do cinema devido à elevada temperatura, agravada pelas paredes de concreto que impediam a dissipação do calor. O fogo se alastra rapidamente graças aos materiais de fácil combustão existentes no cinema, como poltronas, carpetes, cortinas e isolantes acústicos. Até os projetores foram destruídos. A sala Mario de Andrade nada sofre. Mesmo com salas estando ainda em situação irregular perante a Prefeitura, a perícia conclui que o incêndio teria sido criminoso, pois foram arrombados portas e cofre.


















Na ocasião, os cartazes anunciavam: “Bodas de Sangue”, de Carlos Saura (na sala Villa-Lobos), “Crônica do Amor Louco”, de Marco Ferreri (na Cândido Portinari) e “A Mulher do Lado”, de François Truffaut (na Mário de Andrade).

REABERTURA

O Belas Artes é reaberto para convidados em 01/06/1983 e, para o público em geral, em 02/06/1983, totalmente reformado e, agora, dividido em seis salas, cada uma batizada com o nome de um artista brasileiro. Duas salas no subsolo, Carmen Miranda e Mário de Andrade; duas no térreo (local da antiga plateia, dividida ao meio), Oscar Niemeyer e Aleijadinho; e duas no primeiro andar (local do antigo balcão e sua sala de espera), Cândido Portinari e Villa-Lobos. Cada sala com infraestrutura própria: sala de espera, banheiros e saídas de emergência.










Desta vez, os cartazes de rua anunciavam: “Danton, o Processo da Revolução”, de Andrzej Wajda (Villa-Lobos); “Retratos da Vida”, de Claude Lelouch (Cândido Portinari); “Sargento Getúlio”, de Hermano Penna (Oscar Niemeyer); “Sete Dias de Agonia”, de Denoy de Oliveira (Aleijadinho); “O Desespero de Verônica Voss”, de Rainer Werner Fassbinder (Carmen Miranda) e “Crônica de Amor Louco”, de Marco Ferreri (Mário de Andrade).















O cinema segue com a mesma linha de programação (o cinema de arte), mas com uma nova administração, a distribuidora francesa Gaumont do Brasil Cinematográfica Ltda., que o compra da Cia. Serrador e inaugura o conceito de multiplex na cidade (o primeiro da América Latina). A Gaumont exibiria ali os grandes lançamentos do cinema francês.

Além da grande quantidade de salas, o Belas Artes volta com muitos aprimoramentos: cor das salas, que variavam do verde ao vinho, do cinza ao marrom; poltronas em tecido, com encosto duplo e suporte para cabeça; sistema de som Dolby e equipamentos eletrônicos de projeção (com tecnologia europeia). A reforma geral dura seis meses e custa cerca de dois milhões de dólares.

O cinema é interditado logo após a reabertura, em 15/06/1983, pela Secretaria de Habitação e Desenvolvimento Urbano e Comissão Especial de Uso e Ocupação do Solo, que analisaram o Código de Edificações e exigiram modificações no prédio, como a retirada de algumas poltronas das salas e melhorias na circulação interna, para uma saída mais rápida e segura do público. Com as mudanças realizadas, o cinema é autorizado a iniciar suas atividades em outubro do mesmo ano. A capacidade do cinema diminui de 1436 lugares para 988.

DECLÍNIO

Em 29/01/1987, o Circuito Alvorada passa a controlar o Belas Artes e exibir filmes mais comerciais. O público fiel, acostumado a uma programação diferente, vai desaparecendo e, nos anos de 1990, o cinema entra em crise e, sem manutenção, suas instalações se deterioram.















A distribuidora e exibidora carioca Estação Botafogo passa a comandar o cinema em 27/07/2001 e o rebatiza como Estação Belas Artes. Retomam a programação dedicada exclusivamente ao cinema de arte, privilegiando clássicos, filmes independentes e nacionais. Lançam excelentes filmes e promovem ciclos de diretores consagrados. O grupo Estação não obteve sucesso em sua administração e anuncia o fechamento do cinema. André Sturm, cineasta e distribuidor, fã declarado do cinema, procura imediatamente os donos do cinema e propõe uma sociedade (um sonho antigo de Sturm).

Em 05/12/2002, o “Viva o Belas Artes”, movimento criado em sua defesa, consegue adiar o fechamento do cinema por mais alguns dias. Nesta data, o cinema exibiria as suas últimas sessões, por isso, integrantes do movimento penduram faixas em frente ao prédio afirmando que o Belas Artes seria um patrimônio público da cidade e, portanto, não poderia fechar. O “Viva o Belas Artes” tinha o arquiteto Roberto Loeb como presidente e a jornalista Sonia Morgenstern Russo como vice.













ESPERANÇA

REINAUGURAÇÃO – CINE HSBC BELAS ARTES

André Sturm, diretor da Pandora Filmes, junto de Fernando Meirelles (cineasta – diretor), Andréa Barata Ribeiro (publicitária – produtora) e Paulo Morelli (cineasta – diretor), ambos da produtora O2, tornam-se sócios do Belas Artes em março de 2003evitando assim o seu fechamento. Renegociam o aluguel do imóvel e, em dezembro, assinam uma parceria com o banco HSBC, que acrescenta o seu nome ao cinema e dá início a uma reforma total do complexo. “Hoje, com a nova parceria, estou realizando o sonho de viabilizar o projeto com sócios que têm interesses comuns”, diz Sturm.

A reinauguração do Cine HSBC Belas Artes acontece em 28/05/2004, às 20h30, com a superlotação de todas as salas de exibição, que projetavam, simultaneamente, a pré-estreia do filme "O Outro Lado da Rua", de Marcos Bernstein, estrelado por Fernanda Montenegro e Raul Cortês (ambos presentes no evento).














A programação, organizada pelos cineastas Sturm e Meirelles, passa a ser de “cinema de arte” e filmes comerciais de qualidade, mesclados com filmes nacionais, clássicos e outros raros e inéditos no país como, por exemplo, o argentino “Histórias Mínimas” (2002), de Carlos Sorín, exibido na semana da inauguração. “Uma sala para quem gosta de cinema, para cinéfilos radicais, não tanto para quem prefere pipoca e shopping”, explicou Meirelles.

Dentro da programação, entre 6 a 8 filmes em cartaz, havia sempre um brasileiro, além disso, as salas recebiam mostras especiais e, uma vez por mês, o famoso “Noitão”, que exibia filmes na noite de sexta até o início da manhã de sábado (sempre com um filme surpresa). Umas das características da programação era atrair grande quantidade de público para filmes considerados “pouco comerciais”, como por exemplo, o filme francês “Medos Privados em Lugares Públicos”, de Alain Resnais, que ficou em cartaz por cerca de três anos.

Duas reformas, projetadas pelo arquiteto Roberto Loeb e Alexandre Toro (responsável pela comunicação visual), deixam o hall de entrada e os corredores mais espaçosos. Trazem, em cada andar, um lobby com bar e bombonière. No 1º andar, uma janela panorâmica, com bela vista para a Rua da Consolação e no térreo, quatro novas bilheterias (e sem vidros!). Novas tecnologias são instaladas, como novas lentes de projeção e sistema de som mais moderno. É instalado, também, um elevador de acesso para deficientes físicos. Devido às novas poltronas, a capacidade total do cinema passa a ser de 1040 lugares: salas Aleijadinho (154); Cândido Portinari (245); Carmen Miranda (97); Mário de Andrade (88); Oscar Niemeyer (163); e Villa-Lobos (293 lugares).




























Programação de filmes na semana de inauguração: “O Herói da Família”, “O Dia Depois de Amanhã”, “Cronicamente Inviável”, “Quanto Mais Quente Melhor”, “As Bicicletas de Belleville”, “O Outro Lado da Rua”, “Viva Voz” e “Histórias Mínimas”.

O POLÊMICO FECHAMENTO

Em março de 2010, o banco HSBC deixa de patrocinar o Belas Artes. André Sturm, proprietário do cinema, inicia uma mobilização para conseguir novos patrocinadores, pois os valores arrecadados com as bilheterias não são suficientes para manter o complexo de seis salas funcionando. André Sturm, proprietário do cinema declara na época: “Nosso problema é uma equação econômica. Em um cinema de shopping, o aluguel equivale a cerca de 10% do faturamento. Já o nosso, em torno de R$ 60 mil, chega a 25%. As contas não fecham. Da renda de um filme, 50% fica com a distribuidora. Outros 10% vão para os impostos – fora, depois, o imposto de renda, o IPTU...”.

Inicia-se um dramático processo de renovação do contrato de aluguel entre o proprietário do prédio, Flávio Maluf e o dono do cinema André Sturm. Flávio Maluf queria um reajuste no valor do aluguel que, segundo ele, estava muito defasado e Sturm, acertando uma parceria com novos patrocinadores, se compromete a pagar um valor maior.

Mas, em 30/12/2010, às vésperas de assinar um novo contrato de aluguel, Sturm recebe uma notificação judicial para que entregue o imóvel até fevereiro. Sturm havia conseguido o apoio de três empresas dispostas a patrocinar o Belas Artes. Flávio Maluf recusa uma oferta de aluguel acima de R$ 85 mil mensais, com garantia de pagamento por cinco anos (tempo do contrato), mais correção anual.

Em janeiro de 2011, o Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo) e o CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo) abrem processos de tombamento do prédio do cine Belas Artes. Inicia-se uma avaliação sobre a sua relevância no conjunto de edifícios de arquitetura moderna nos anos 1940 e 1950, na caracterização urbanística da área da Rua da Consolação e da Avenida Paulista. Analisando, também, a necessidade de se preservar a arquitetura original do antigo cine Trianon (precursor do Belas Artes), obra de 1956, do arquiteto de origem italiana Giancarlo Palanti (1906-1977). Com a abertura dos processos, o proprietário do imóvel fica obrigado a pedir autorização para qualquer alteração que pretendesse realizar no prédio.

O anúncio do fechamento do Belas Artes desencadea inúmeras manifestações populares, entre passeatas, criação de blogs e páginas em redes sociais, além de abaixo-assinados físicos e eletrônicos com o registro de cerca de 28 mil adesões. Houve, também, manifestação de funcionários do cinema e protestos de cineastas e críticos. Mas, nada disso impede que o Belas Artes feche as portas em 17/03/2011.

André Sturm chega a visitar imóveis no centro da cidade para alugar e abrir um novo cine Belas Artes, mas desiste, acreditando que o processo de tombamento pudesse reverter a situação, mesmo após o fechamento.

Depoimento do cineasta Carlos Reichenbach (1945-2012): “Cada cinema de rua que fecha é o mesmo que uma biblioteca desativada ou uma praça pública depredada. Seja em São Paulo, ou pior ainda no interior, equivale a necrose da artéria da vida social da aldeia. Não vejo paliativos para ‘salvar’ patrimônios culturais enfermos e/ou ameaçados; a solução será sempre extrema. Tombamento já!”.

17/03/2011
AS ÚLTIMAS SESSÕES

O último dia de funcionamento do Belas Artes teve uma programação especial com clássicos do cinema, batizada de “A Última Sessão do Cinema”: “La Dolce Vita” (Federico Fellini, 1960), “No Tempo do Onça” (Irving Brecher, 1940), “O Leopardo” (Luchino Visconti, 1963), “O Joelho de Claire” (Eric Rohmer, 1970), “O Águia” (Clarence Brown, 1925) e “Queimada!” (Gillo Pontecorvo, 1969).  As sessões estiveram lotadas e muitos frequentadores tiraram fotos para guardar de recordação.

Link: “Espírito do cinema sobreviveu à última sessão”, por Luiz Carlos Merten

No dia seguinte, o cinema começa a ser desmontado. Equipamentos das salas de projeção são doados à Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA) e as poltronas de veludo, vendidas. O prédio acaba ficando vazio e fechado por meses e sendo alvo de pichadores.

















O processo de tombamento do prédio do Belas Artes é negado pelo Conpresp (órgão municipal) em 27/09/2011 e, também, pelo Condephaat (órgão estadual) em 28/11/2011, permitindo que o dono alugasse o imóvel. O prédio teve a fachada e o seu interior modificados durante décadas, o que dificultava as chances do chamado tombamento material, muito menos o imaterial, que seria a atividade de cinema do Belas Artes, também de difícil regulamentação.

Mas, em 19/12/2011, a Justiça exige que o processos sejam revistos, acolhendo um pedido do Ministério Público Estadual, que havia sido acionado pelos defensores do cinema. Na decisão, o juiz Jayme Martins de Oliveira Neto e o promotor Washington Luís, da 13ª Vara da Fazenda Pública, afirmam haver indícios de que os órgãos municipal e estadual não observaram “procedimentos necessários e legais ao exame da qualidade cultural do imóvel”. Um novo estudo técnico é iniciado e, mais uma vez, o proprietário é impedido de alugar o imóvel, além disso, a liminar expressava que qualquer alteração e descaracterização do prédio, implicariam em multa de R$ 100 mil por dia ao dono.

O vereador Eliseu Gabriel cria a CPI Cine Belas Artes, aprovada e instalada na Câmara Municipal de São Paulo, em 11/04/2012. A comissão formada por sete vereadores, tendo como relator, o vereador Floriano Pesaro, passa a discutir e apurar a regularidade dos processos de tombamento e a função social do prédio do cine Belas Artes.

Uma grande conquista é anunciada em 15/10/2012: a fachada do cinema e sua entrada (mais o recuo interior de 4 metros a partir da fachada) são tombadas pelo Condephaat. Um grande passo para o possível retorno do cinema, já que a medida dificulta que o dono alugue o imóvel para outros fins. O conselho determina, ainda, que a minuta de tombamento deveria contemplar “elementos na calçada e fachada que remontem à memória do cinema, a fim de garantir o registro permanente da memória”, divulga o Condephaat.

O FESTEJADO RETORNO

A tão esperada volta do cine Belas Artes é finalmente anunciada, na tarde de 28/01/2014Os atores Alessandra Negrini e Marcelo Médici abrem a cerimônia realizada na Praça da Artes, centro de São Paulo, onde é assinado o acordo entre a Prefeitura de São Paulo, os patrocinadores Caixa Econômica Federal e Grupo Caixa Seguros, o exibidor e programador André Sturm e o proprietário do imóvel Flávio Maluf. O evento conta com a presença de Fernando Haddad (Prefeito de São Paulo), Juca Ferreira (Secretário Municipal da Cultura), Marcelo Araújo (Secretário Estadual da Cultura), entre outros.



































O Belas Artes, que passa a se chamar oficialmente Cine CAIXA Belas Artes, será todo reformado e terá reabertura prevista entre maio e junho. O responsável pela reforma do cinema é o arquiteto Roberto Loeb. Suas instalações serão todas modernizadas e a acessibilidade para portadores de necessidades especiais será melhorada.

Pelo acordo, os recursos dos patrocinadores servirão para manter a programação, enquanto a arrecadação será destinada para pagar o aluguel. A Prefeitura de São Paulo contribuirá com programas culturais associados ao Belas Artes, como o “Escola Vai ao Cinema”, destinado aos estudantes de escolas públicas e privadas, que terão sessões matinais especiais, além de programas que estimulam e ampliam o acesso ao cinema.














Integrantes do Movimento Cine Belas Artes, criado após o fechamento do espaço, estiveram presentes na cerimônia para comemorar o projeto de reabertura do cinema, que terá meia-entrada às segundas-feiras para trabalhadores e programação de filmes privilegiando o cinema nacional e, também, o cinema paulista, exibindo filmes produzidos com os incentivos da SP Cine.

Vamos modernizar e colocar novos equipamentos, mas não mudaremos a programação. O Belas Artes terá a mesma cara com a qual as pessoas estão acostumadas e gostam, disse o diretor e programador do cinema, André Sturm.

Dedico este texto às duas pessoas mais importantes da história deste “templo do cinema”, o criador da identidade cultural do Belas Artes, Dante Ancona Lopez e a aquele que frequentou o cinema na infância e que foi um verdadeiro herói na preservação deste patrimônio cultural da cidade, André Sturm.
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PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

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Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

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